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Rubayat - Omar Khayyam
I
Todos sabem que eu nunca fiz a oração da manhã.
Todos sabem que eu jamais tentei esconder meus defeitos. Ignoro se
existe uma Justiça e uma Misericórdia ... Entretanto, eu confio, se
alguma existir, ela será sincera.
II
O que vale mais? Sentar-se numa taberna, mas fazer
seu exame de consciência, ou se prostrar em uma mesquita, com a alma
fechada? Eu não me preocupo em saber se nós temos um Mestre e o que ele
fará de mim, quando eu morrer.
III
Considere com indulgência os homens que se
embebedam. Dizes que tem multidões de defeitos. Reflita que conhecem a
paz, a serenidade, e você se sentirá feliz.
IV - * * * * *
Tens a sorte que teu próximo não pode sofrer os
teus desejos. Domine-se sempre. Não te abandones à cólera. E te vês se
aproximares da paz definitiva, sorria ao Destino que te golpeia, e não
golpeie ninguém.
V
Porque
ignoras o que te reserva o amanhã, esforce-se para
ser o melhor, hoje. Pegue uma jarra de vinho, vá te assentar ao luar,
e beba, dizendo a si mesmo que a lua te encontrará um pouco menos inútil
amanhã.
VI
O Corão, este livro supremo, os homens o lêem
algumas vezes, mas quem se deleita com isto, em algum momento? Sobre a
mesa de todos os copos cheios de vinho está encerrada uma máxima secreta
que nós somos obrigados a saber.
VII
Nosso tesouro? O vinho. Nosso palácio? A taberna.
Nossas companhias fiéis? A sede e a embriaguez. Nós ignoramos a
inquietação, nós sabemos que nossas almas, nossos corações, nossos
copos, e nossas roupas manchadas não são nada além de pó, de água e de
fogo.
VIII
Neste mundo, contente-se em Ter poucos amigos. Não
procure a durável simpatia, que pouco te aproveitará para qualquer
coisa. Antes de apertar a mão de um homem, questione-se se ele não será
teu inimigo, um dia.
IX
*****
Antigamente, este vaso era um pobre amante que se
lamentava pela indiferença de uma mulher. O estreito vale, ladeando o
copo, ... seu braço que contornavam o pescoço da bem-amada!
X
Isto é que é aviltante: o coração que não sabe amar,
que não pode embriagar-se com o amor! Se não amas, como podes apreciar a
luz ofuscante do sol e a doce claridade da lua?
XI
*****
Toda a minha juventude refloriu hoje! Vinho! Vinho!
Que suas chamas me abrasem! ... Vinho! Não importa qual ... Eu não tenho
problemas. O melhor, bem temperado, eu o acharei amargo, como a vida!
XII
Sabes que não tens poder sobre teu destino. Porque a
incerteza do amanhã te causa ansiedade? Se fores sábio, aproveita o
momento atual. O futuro ? Que te importa ele?
XIII
Eis a estação inefável, a estação da esperança, a
estação onde as almas impacientes de perderem sua lucidez procuram
companhias perfumadas. Alguma flor pode ser a mão direita de Moisés?
Alguma brisa pode ser o alento de Jesus ?
XIV
Não andará seguro pelo Caminho, o homem que não
provou o fruto da Verdade. Se puder roubar a árvore da Ciência, saberá
que os dias passados tanto quanto os que virão não diferem em nada do
primeiro dia da Criação.
XV
*****
Acima da Terra, acima do Infinito, eu procurei ver o
Céu e o Inferno. Uma voz solene me disse: O Céu e o Inferno estão em
você.
XVI
*****
Nada me interessa mais. Levanta-te, para me servir
vinho! Esta tarde, tua boca é a mais bela rosa do Universo ... Vinho!
Que seja vermelho como tuas bochechas, e que me coaja como seu pescoço!
XVII
A brisa da primavera refresca a visão das rosas. Na
penumbra do jardim, ela acaricia a visão de minha bem-amada. Malgrado a
felicidade que tivemos, esqueço nosso passado. A doçura do hoje é mais
imperiosa!
XVIII
Por quanto tempo ainda, estarão emersas as pedras
do Oceano? Eu não me reprimo nem pelos libertinos, nem pelos devotos.
Khayyam, quem pode afirmar que irás para o Céu ou para o Inferno? Além
disto, o que entendemos por estas palavras? Você conhece alguém que
tenha visitado estes lugares?
XIX
Odre, urna imensa, ignoro quem te criou! Eu
sei somente que és capaz de conter três medidas de vinho, e que a morte
te quebrará um dia. Então, eu me indagarei por longo tempo porque
fostes criado, e porque fostes feliz e porque morrestes.
XX
*****
Tão rápido quanto a água do rio ou o vento do
deserto, nossos dias escoam. Dois dias, dependendo, me deixam
indiferente: o que terminou ontem, e o que começará amanhã.
XXI
****
Quando estarei bem? Quando morrerei? Nenhum homem pode
retornar ao dia de seu nascimento nem desenhar o dia de sua morte. Venha,
minha doce bem-amada! Eu te mostrarei como a embriaguez me faz esquecer
como não seremos jamais
XXII
*****
Khayyam, o que causou as tendas de tua Sabedoria,
ruírem no braseiro da Dor e serem reduzida a cinzas. O anjo Azrael cortou
as cordas de sua tenda. A morte vendeu sua glória por uma canção.
XXIII
Porque te
afliges, Khayyam, por tantas faltas cometidas? A
tristeza é inútil. Após a morte, ou há o nada ou há a
Misericórdia.
XXIV
*****
Nos monastérios, sinagogas e mesquitas se refugiam
os que temem o Inferno apavorante. O homem que conhece a grandeza de
Deus não semeia em seu coração os grãos malvados do terror e da súplica.
XXV
*****
Na primavera, eu me sentarei algumas vezes no campo
florido. Quando uma bela jovem me trazer um copo de vinho, eu não
pensarei em minha saúde. Se eu tivesse esta preocupação, eu valeria
menos que meu cachorro.
XXVI
O vasto mundo: um grão de pó no espaço. Toda a
ciência dos homens: palavras. Os povos, as feras, e as flores dos sete
climas: sombras. O resultado de sua perpétua meditação: nada.
XXVII
*****
Admitamos que você tenha resolvido o enigma da
criação. Qual é teu destino ? Admitamos que você possa descobrir todas
as faces da Verdade. Qual é teu destino ? Admitamos que você tenha cem
anos, felicidade, e que vivas mais cem anos ainda. Qual é teu destino?
XXVIII
*****
Compenetre-se disto: um dia tua alma deixará teu
corpo, e serás pó que flutua entre o Universo e o desconhecido. Se
compreendestes, és feliz! Não sabes de onde viestes, nem sabes para onde
vais.
XXIX
Os sábios e os mais ilustres filósofos estão
mergulhados nas trevas da ignorância. Entretanto, eles são os luminares
de sua época. E o que eles tem feito? Pronunciam algumas frases
confusas, e caem no sono.
XXX
*****
Meu coração me disse: "Faça-me saber, ensina-me!
Instrua-me, Khayyam, tu que trabalhas tanto!" Eu pronunciei a primeira
letra do alfabeto, e meu coração me disse: "Isto eu já sei. Um é o
primeiro dígito de um número infinito...
XXXI
Ninguém pode compreender o que é misterioso. Ninguém
é capaz de ver o que se esconde sob sua aparência. Todas as nossas
premissas são provisórias, são nosso fim: a terra. Beba o vinho! Chega
de discursos supérfluos !
XXXII
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A vida que não é monótona ganhará duas coisas: a dor
e a morte. Felicidade, a criança que morre no dia de seu nascimento.
Mais feliz ainda: a que nem chega a nascer!
XXXIII
*****
Não procures amigos entre seus adversários. Não
procures, não mais, um abrigo seguro. Da alma fechada, provém a dor, e
não sonhe em procurar um remédio, porque não encontrarás. No infortúnio,
sorria. Não pretenda que alguém sorria para você. Perderias seu tempo.
XXXIV
A Terra gira, inconsciente dos cálculos dos sábios.
Renuncie a seu esforço vaidoso de nomear os astros. Medite sobre esta
certeza: morrerás, não voltarás jamais, e sobre sua tumba os cães
devorarão o teu cadáver.
XXXV
Eu dormia. A Sabedoria me disse: "As rosas da Bondade
não perfumam os sonhos. Em lugar de te abandonares ao irmão da morte,
beba vinho. Terás a eternidade para dormir, depois."
XXXVI
O criador do universo e das estrelas ultrapassou-se
quando criou a dor! Olhos semelhante aos rubis, cabeleiras emboladas,
tudo o que serás na terra?
XXXVII
*****
Não posso perceber o Céu. Tenho muitas lágrimas nos
olhos! Os braseiros do Inferno são uma fagulha ínfima, se os comparo às
chamas que me devoram. O Paraíso, para mim, é um instante de paz.
XXXVIII
Durma sobre a terra. Durma sob a terra. Sobre a
terra, sob a terra, os corpos estendidos. Nada por tudo. Deserto de
nada. Homens chegando. Outros se indo.
XXXIX
Velho mundo que cruza, a galope, o cavalo branco e
negro do Dia e da Noite, tu és triste palácio onde cem Djemchids
reverenciam sua glória, onde cem Bahrâms reverenciam seu amor, e se
revelam em suas lágrimas.
XL
*****
O vento sul seca a rosa aonde o rouxinol cantava
preces. Ele chorará por ela ou por nós? Quando a morte definhar nossa
alegria, outras rosas se espalharão.
XLI
*****
Esqueça que devias ser recompensado ontem e que não
o fostes. Sejas feliz. Não lamentes nada. Não esperes nada. O que deve
chegar está escrito no Livro que é folheado, ao acaso, pelo vento da
Eternidade.
XLII
Ainda que eu ouça dissertarem sobre as
jóias reservadas aos Élus, eu me contento em dizer: "Não confio em nada,
além do vinho. Nem no contador de prata, nem em nenhuma promessa! O ruído dos
tambores soam distantes ..."
XLIII
*****
Beba vinho! Receberás a vida eterna. O vinho é o
único filtro que pode te devolver a juventude. Divina estação das rosas,
do vinho e dos amigos sinceros! Alegria do instante fugitivo que é a
vida.
XLIV
*****
Beba vinho, porque dormirás muito sob a terra, sem
amigos, sem mulher. Eu te conto um segredo: as tulipas fechadas não se
abrirão jamais.
XLV
Voz baixa, a argila disse ao oleiro que a misturou: "Considere
que eu seja como você e Não me brutalize mais!"
XLVI
Oleiro, se és perspicaz, guarda-me, si és
perspicaz quarda-te de misturar o barro com que foi feito Adão! Eu vejo
sobre toda a mão de Féridoun, o coração de Khosrou ... Que fizestes!
XLVII
O rouxinol coloca sua púrpura no sangue de
um imperador. A andorinha nasce do grão de beleza que estrela os olhos da
adolescente.
XLVIII
*****
Depois da miríade de séculos, há a aurora dos
crepúsculos. Depois de miríade de séculos, os astros continuam seu
trajeto. Amontoe a terra com precaução, porque este pequeno monte que
edificas pode ser os olhos lânguidos de uma adolescente.
XLIX
Este narciso que treme na margem do rio, suas raízes
saíram do restos decompostos de uma mulher. Que eles aflorem no gramado!
Diz-se que germinou nas cinzas que saem das tulipas vermelhas.
L
*****
Eu vi, ontem, um oleiro que estava sentado diante de
sua torre. Ele modelava o gargalo e os lados de suas urnas. Ele modelava
os crânios dos sultãos e as mãos dos mendigos.
LI
*****
O bem e o mal se combatem há tempos, aqui em baixo.
O Céu não é responsável pela bondade ou pela maldade do destino que nos
chegará. Não agradeça ao Céu, nem o acuse ... Ele é indiferente a toda a
alegria, tanto quanto a toda dor.
LII
Se enxertas em teu coração a rosa do amor, tua vida
não será inútil, e se procuras entender a voz de deus, já brandistes tua
taça sorrindo ao prazer.
LIII
*****
Prudência, viajante! O teu caminho é perigoso. A
espada do destino é muito afiada. Se veres amêndoas doces, não as
recolhas. São veneno.
***** LIV
*****
Um jardim, uma jovem sinuosa, uma urna de vinho, meu
desejo e minha amargura: eis aí meu Paraíso e meu Inferno. Mas quem
desviou-se para o Céu e para o Inferno?
LV
Você, fazendo a alegre homilia da tarde, você,
lembrando-se daquele ídolo chinês, podes apreciar o veludo oferecido ao
rei da Babilônia com a alegria dos que recuam diante do Reino?
LVI
A vida se acaba. O que resta de Bagdá e de Balbek? Um
moinho é fatal à toda rosa que floresce. Beba o vinho e contemple a Lua,
evocando civilizações que ela viu morrer.
LVII
Escute o que a Sabedoria repete a todo
dia "A vida é breve. Você não tem nada em comum com as plantas quando estão
copadas."
LVIII
*****
Os retores dos sábios silenciosos estão mortos sem
terem entendido o ser e o não-ser. Ignorantes, meus irmãos, continuam a
saborear a uva, e deixam os grandes homens se regalar com as razões
secretas.
***** LIX
*****
Meu nascimento não traz ganho ao universo. Minha
morte não diminuirá sua imensidade ou seu esplendor. Ninguém jamais me
explicará porque eu vim, porque já terei partido.
********
LX ********
Nós tombaremos no caminho do Amor. O destino nos
atropelará. Ó, jovem mulher, ó, minha taça encantadora, levante-se e
dê-me teus lábios, acompanhando o pó, que sou!
LXI
Da felicidade, não conhecemos o nome. Nosso mais
velho amigo é o vinho novo. Da estima e da mão, nosso carinho que não
desaponta: urna plena do sangue da vinha.
LXII
Os palácios de Bahrâm são agora o refúgio das
gazelas. Os leões rondam os seus jardins onde cantavam os músicos.
Bahrâm, que capturastes os touros selvagens, agora sois um túmulo onde
brotam os ânes.
*****
LXIII * * * * *
A procura da felicidade. A vida é tão breve quanto
um sopro. O pó de Djemchid e de Kaï-Kobad voltaram ao verme podre que
contemplas. O universo é uma miragem. A vida é um sonho.
LXIV
Assenta-te e bebe! Alegrar-te-ás com uma felicidade
que Maomé jamais conheceu. Escute as melodias que exalam as vozes dos
amantes: elas são os salmos sagrados de Davi. Não chores nem o passado,
nem o futuro. Nada que seja pensado, nem passado, pelo momento. Este é o
segredo da paz.
LXV
Os homens sérios e orgulhosos estabelecem uma
diferença entre alma e corpo. Eu, só afirmo uma coisa: o vinho destrói
nossas amarguras e nos traz a perfeita quietude.
LXVI
Que enigma, estes astros que bondosamente estão no
espaço! Khayyam, com certeza tens a corda da Sabedoria. Prenda o
vestígio que faz tombar, autor de tudo, teus companheiros!
LXVII
*****
Eu não temo a morte. Eu prefiro ser indiferente a
tudo o que me foi imposto desde meu nascimento. Que é a vida ? Um bem
que me foi confiado a contragosto, e ao qual me rendi com indiferença.
LXVIII
*****
A vida passa, rápida caravana! Tome uma decisão e procure
ser feliz. Jovem mulher, porque te entristeces ? Sirva-me vinho! A
noite virá mais tarde ...
LXIX
Entendo dizer-se que os amantes do vinho serão
danados. Não é verdade, é uma mentira evidente. Se os amantes do vinho e
do amor irão para o Inferno, o Paraíso dever ser uma videira.
***** LXX * * * * *
Estou velho. Minha paixão por você me leva à tumba,
e eu não paro de beber o vinho em grande copo. Minha paixão por você é a
razão de minha razão. E o tempo pisou sem piedade a bela rosa que eu
tinha...
LXXI
*****
De modo algum podes me esquecer, visão de felicidade
! Você pode modular seus encantamentos, voz amorosa ! Eu assumo o que
escolhi e escuto o que já me adormece. Alguém me disse: "Ala te
perdoará". Eu recuso este perdão que não pedi.
LXXII * * * * *
Um pouco de pão, um pouco de água fresca, a sombra
de uma árvore, e os teus olhos! Nenhum sultão é mais rico do que eu. E
ninguém é mais triste.
LXXIII
Porque
tanta doçura e ternura no início de nosso amor?
Porque tanto carinho e tantas delícias, depois? Agora, teu único
prazer é cortar meu coração ... Porquê ?
LXXIV
Quando minha alma pura e a tua abandonarem nossos
corpos, alguém colocará uma pedra em nossas testas. E um dia, alguém
quebrará tuas cinzas e as minhas.
LXXV * * * * *
Vinho, meu coração doente precisa deste remédio!
Vinho, perfume mesclado! Vinho, colorido da rosa! Vinho para tentar
incendiar minha tristeza! Vinho, e tua voz nos acordes da tarde, minha
bem-amada!
LXXVI
Fala-se do Criador ... Ele não formaria os seres
para destrui-los! Pode ser que mentisse? Quem é o responsável? Parece
que são bons? Eu não compreendo mais ...
LXXVII - * * * * *
Todos os homens deveriam caminhar no Caminho do
Conhecimento. Este caminho, alguns pesquisam, outros afirmam que
encontraram. Mas, um dia, uma voz gritará: "Este caminho não faz
sentido!"
LXXVIII
Dedicado às chamas da aurora do vinho de tua taça
como tulipa da primavera! Dedicado ao sorriso de uma adolescente que o
vinho de tua taça chega à sua boca! Beba, e esqueça que o punho da dor
te golpeará amanhã, também.
LXXIX
Vinho! Vinho em torrentes! Que ele salte em minhas
veias! Que ele ensope minha cara! As taças... Não falo mais! Tudo o que
não é mentira. As taças ... Vida! Eu já envelheci ...
LXXX
Um tal odor de vinho emanará de minha tumba, que os
passantes se embriagarão. Uma tal serenidade envolverá minha tumba, que
os amantes não poderão se afastar dele.
LXXXI
No turbilhão da vida, somente são felizes os homens
que se crêem sábios e os que não procuram se instruir. Eu tenho me
inclinado sobre os segredos do Universo, e recuperei minha solidão
invejando os cegos que encontrei.
LXXXII - * * * * *
Alguém me disse: "Não beba mais, Khayyam!" Eu
respondi: "Quando eu bebo, eu entendo o que dizem as rosas, as tulipas e
os jasmins. Eu entendo até mesmo o que não me diz minha bem-amada."
LXXXIII
Em que refletes, meu amigo? Pensas em teus
ancestrais? Eles são pó no meio do pó. Pensas em seus méritos? Guarda-me
de sorrir. Segure esta jarra e beba ouvindo sem inquietar-se o grande
silêncio do Universo.
LXXXIV
A aurora feliz das rodas na taça do céu. No
ar de cristal se acaba o canto do derradeiro rouxinol. O odor do vinho
é mais sutil. Diz-se que neste momento os insensatos reverenciam
sua glória, honrados! Pentei seus cabelos, minha bem-amada!
LXXXV
*****
Amigo, não faça projetos para amanhã. Digas somente
se podes completar a frase que vais iniciar? Amanhã, nós estaremos longe
desta caravana e comparados aos que desapareceram há sete mil anos.
LXXXVI
O, retiro dos corações, presos a uma jarra e um
copo! Vamos nos sentar à mesa. Adolescente talhada e de clara visão, eu
te contemplo e te sonho na jarra e no copo que serás um dia.
LXXXVII
*****
Há tempos que minha juventude alcançou tudo o
que está morto. Primavera de minha vida, tu és agora o que fomos
nas primaveras passadas. Ó, minha juventude, partistes e nem percebi!
Partistes e cancelastes de cada dia a doçura da primavera.
LXXXVIII
****
Abre-te, meu irmão, a todos os perfumes, a todas as
cores, a todas as músicas. Acaricie todas as mulheres. Recorda-te que a
vida é breve e que tu voltarás à terra, serás a água de Zemzem ou de
Selsebil.
LXXXIX - * * * * *
Aspire a paz aqui em baixo: alegria. Cruze o repouso
eterno: alegria. Após a morte, teu sono será breve, e tu renascerás, em
um arbusto que será transformado em uma flor que florirá sozinha.
XC
*****
Eu me pergunto o que possuo realmente. Eu me
pergunto o que restará de mim após a morte. Nossa vida é breve como um
incêndio. Chamas que o transeunte esquece, pó que o vento dispersa: um
homem vencido.
XCII
*****
Convicção e dúvida, erro e verdade, não são as
palavras como as vides que flutuam ao vento. Iradas ou ternas, estas
brisas são a imagem da tua vida.
* * * * *
XCII - * * * * * *
Ao poder de Kaï-Kaous, à glória de Kai-Kobad, às
riquezas de Khorassan, eu prefiro o jarro de vinho. Prefiro a amante que
geme de prazer ao hipócrita que murmura uma oração.
XCIII
Escute o grande segredo. Quando a primeira aurora
iluminou o mundo, Adão já era uma sofrida criatura que apelava à noite,
que apelava à Morte.
XCIV * * *
* *
A Lua de Ramazan aparece. Amanhã, o sol lavará uma
vila silenciosa. Os vinhos dormirão nas jarras e as jovens nas sombras
dos bosques.
XCV
* * * * *
Eu não posso comandar o viver. Eu me esforço por
aceitar sem espanto e sem cólera tudo o que a vida me traz. Eu partirei
sem Ter questionado ninguém acerca de minha estranha passagem sobre esta
Terra.
XCVI
Não deixe de colher todos os frutos da vida. Vá a
todos os festins e escolha os copos grandes. Não creia que Allah terá em
conta nossos vícios e nossas virtudes. Guarda-te de negligenciar o pouco
que te faz honrado.
* * * * *
XCVII * * * * *
Noite.
Silêncio. Imobilidade de um ramo e de meu pensamento.
Uma rosa, imagem de teu esplendor efêmero, tem de perder suas
pétalas que caem. Onde estás, neste momento, tu que me oferecia o copo
e a quem chamo ainda? Sem dúvida, nenhuma rosa floresce perto daquele
que descerá ao mundo inferior, e tu estás privada da felicidade de amar
quem pode te embebedar.
XCVIII * *
* * *
Sabes como me interesso pelos quatro elementos
da natureza e pelas cinco faculdades do Homem! Certos filósofos
gregos, dizen, poderiam propor cem enigmas à sua platéia? Minha indiferença com
relação a isto é completa. Importa-me o vinho, jóia rara, cujas
modulações me lembram a brisa, que passa, como nós!
XCIX
Quando a sombra da Morte vier sobre mim, quando a
luz de meus dias se apagar, eu vos chamarei, e você me esquecerá, minha
amiga! Quando eu for pó, farás, para minhas cinzas, uma urna que você
encherá de vinho. Então, me verás reviver.
C
Eu não sei onde poderei encontrar o manto da Verdade
e da mentira, mas eu sempre me importo em procurar o bom vinho. Meu
cabelo está branco. Tenho setenta anos. Aprendi a forma de ser feliz,
hoje, pois amanhã, eu poderei não Ter mais forças..
CI
Aonde estão nossos amigos? A morte os levou sem
piedade? Aonde estarão todos os nossos amigos? Ainda ouço suas canções
na taberna ... Eles estão mortos, ou estão bêbados no submundo?
CII - * * * * *
Quando eu deixar de ser, não haverá rosas, ciprestes,
faces rosadas e vinho perfumado. Não haverá nrm auroras, nem
crepúsculos, nem alegria, nem dor. O Universo não existirá mais, porque
sua realidade depende de nosso pensamento.
CIII
Eis a única verdade. Somos os peões da misteriosa
partida jogada por Allah. Ele nos move, nos derruba, nos avança, mas,
lance após lance, ele nos leva de volta à caixa.
CIV * * *
* *
A curva do céu lembra uma taça invertida, sob a qual
erram, em vão, os sábios. Que teu amor por tua bem-amada compare-se ao
da urna pelo copo. Veja ... Lábio a lábio, elas bebem seu sangue.
CV * * * *
*
Os sábios não ensinarão nada, mas o cuidado nos
longos cílios de uma mulher te revelarão a felicidade. Não se esqueça
que teus dias estão contados e que cedo serás o alimento da terra.
Compre vinho, remova o vazio, deixe-o te consolar.
CVI
Ele te derramará seu calor. Ele te livrará da neve
do passado e das sombras do amanhã. Ele te inundará de luz. Ele quebrará
tuas cadeias de prisioneiro.
CVII * * *
* *
No passado, quando eu freqüentava as mesquitas, não
pronunciei prece alguma, mas me enchia de esperança. Eu sempre me
assento junto às mesquitas, porque sua sombra é propícia ao sono.
CVIII
Sobre a terra, peregrino, há um caminho em que não há
nenhum muçulmano, nem infiel, nem rico, nem pobre. Ele não reverencia
nem Allah, nem as leis. Ele não acredita na verdade. Ele não afirma
nada. Sobre a Terra peregrino, que homem está bravo ou triste?
CIX
Antes de golpeares o rosto rosado, que espinhos
retirarás de sua carne! Veja este pente. Este pedaço de floresta. Quando
não está ocupado, que suplícios ele padece. Mas ele se alegra quando
mergulha na cabeleira perfumada de um adolescente.
CX * * * *
*
Quando a brisa da manhã entreabre as rosas e
seus sussurros nas violetas as despem de suas roupas, só é digno de
viver aquele que observa dormir uma jovem. Ela! Consulta seu copo, sua
vida, e a deixa.
CXI
Aprendestes o pouco que te pode chegar amanhã? Seja
confiante, senão o infortúnio não justificará seus receios. Nem te
prendas a nada, nem questione nem libertos, nem escravos, porque nosso
destino é insondável.
CXII
Senhor, Senhor, responda-nos! Tu nos destes a visão,
e nos permitistes que a beleza de tuas criaturas nos esquecesse.... Tu
que nos destes a faculdade de sermos felizes, és tu quem nos manda renunciar
a todos os bens deste mundo? Não nos é possível emborcar uma taça
sem derramar o vinho que ela contém!
CXIII
Em uma taberna, eu pedi a um velho sábio que me
ensinasse sobre os que partiram. Ele me respondeu: "Eles não voltarão.
Isto é tudo o que sei. Beba seu vinho!"
CXIV
Olhe! Escute! Uma rosa treme na brisa. Um rouxinol
canta um hino apaixonado. Uma nuvem é chegada. Bebamos vinho! Esqueçamos
que esta brisa desfolhará a rosa, calará o canto do rouxinol e esta
nuvem que nos sombreia é passageira.
CXV
Este domo celeste sob o qual erramos, eu o
comparo a uma lanterna mágica na qual o sol é a lâmpada. E o mundo é a
cortina onde passam nossas imagens.
CXVI
Uma rosa disse: "Eu sou a maravilha do Universo. Na
verdade, um perfumista teria coragem de me fazer sofrer?" Um rouxinol
cantará: "Um dia de felicidade prepara um ano de lágrima."
CXVII
Esta tarde ou amanhã, tu não existirás mais. É o
momento de pedires vinho, da cor da rosa. Insensato, te comparas a um
tesouro, e crês que os peregrinos meditando abrirão o seu sepulcro e se
importarão com teu cadáver?
CXVIII
Sultão, teu destino glorioso está escrito nas
constelações aonde queima o nome Khosrou! Depois de iniciados os anos,
teu cavalo, tuas sandálias de ouro, bendito entre os astros. Quando
passares, um turbilhão de insetos te descortinará à nossa vista.
CXIX
O amor que não reage não é amor. Um fole que não
espalha o calor do braseiro? Noite e dia, durante toda sua vida, a
verdadeira amante se consome de dor e de alegria.
CXX
Podes sondar a noite que nos envolve. Podes refletir
sobre esta noite... Não sairás mais. Adão e Eva, que dizemos
formidáveis, em seu primeiro beijo, nós os acreditamos desesperados!
CXXI
As estrelas deixam tombar suas pétalas de ouro. Eu
me pergunto porque meu jardim está cheio. Como o céu espalha suas flores
sobre a terra, eu encho meu copo negro com o vinho rosado.
CXXII * *
* * *
Bebo vinho como a raiz do salgueiro bebe da onda
clara da corrente. Somente Allah é Allah. Somente Allah sabe tudo,
dizes? Quando ele me criou, ele sabia que eu creria no vinho. Se eu me
abstivesse de beber, a ciência de Allah seria falsa.
CXXIII
O vinho,
somente, te livrará de tuas dores. O vinho, somente, te
impedirá de hesitar entre as setenta e duas portas. Não te voltes para
o mágico que pode te transportar ao contrário do esquecimento.
CXXIV * *
* * *
Em alguma
manhã existirá o rosado das tulipas que esmagas, como
os jacintos e as violetas, mas o sol te libertará de seu brilhante
fardo. Em alguma manhã, meu coração estará mais pesado em meu peito,
mas atente que ele me livrará desta tristeza.
CXXV
Se vês a magnífica solidão das estrelas e das
flores, rompa com todos os homens, com todas as mulheres. Não caminhe
perto de ninguém. Não te prendas a nenhuma dor. Não participes de nenhuma.
CXXVI * *
* * *
O vinho tem a cor das rosas. O vinho não pode ser o
sangue das vinhas, mas das rosas. Este copo não é de cristal, mas de
azul do céu. A noite não pode ser a pálpebra do dia.
CXXVII
O vinho proporciona aos sentidos um ardor comparável
ao dos Élus. Ele nos devolve nossa juventude, ele nos devolve o que
perdemos e ele nos dá o que nós desejamos. Ele nos queima como torrente
de fogo, mas ele pode mudar nossa tristeza em água refrescante.
CXXVIII *
* * * *
Feche o Corão. Pense livremente e atente livremente
para o céu e para a terra. Ao pobre que passa tendo a metade do que
possuis. Perdoe a todos os culpados. Não entristeça ninguém. E esconda
teu sorriso.
CXXIX * *
* * *
Como o homem é fraco! Como o destino é inelutável!
Fazemos juramentos que não cumprimos, e nossa vergonha é nossa
indiferença. Eu mesmo ajo como um insensato. Mas me desculpo por estar
embriagado de amor.
CXXX
Homem, uma vez que o mundo é uma miragem, porque te
desesperas, porque meditas sem cessar em tua miserável condição?
Abandone tua alma à fantasia das horas. Teu destino está escrito.
Ninguém o pode modificar.
CXXXI
Este orvalho ao redor da rosa, é a materialização de
seu perfume ou uma ferida que a bruma lhe deixou? Teus cabelos sobre tua
face, é a noite que ainda se dissipa por respeito a você? Revele-me,
bem-amada! O sol doura nossos copos. Bebamos!
CXXXII
Tenha a resolução de não compreender o céu.
Cerque-se de belas jovens e as aprecie. Hesitas? Você duvida da
providência divina? Antes de você, os homens pronunciavam fervorosas
preces. Eles partiram, e você ignora se Allah os entendeu.
CXXXIII *
* * * *
A aurora! Felicidade e pureza! Um imenso rubi cintila
em cada copo Segure estes dois galhos de sândalo. Transforme-os em
palavras, abrace aquela de quem emana seu perfume.
CXXXIV * *
* * *
Cansei de interrogar os homens e os libertos, prefiro
questionar uma jarra. Eu coloquei meus lábios sobre os seus e murmurei:
"Quando morrer para onde irei?", Ela me respondeu: "Beba em
minha boca. Beba bastante. Tu jamais morrerás."
CXXXV
Se estás entusiasmado, Khayyam, estás feliz. Se
contemplas tua bem-amada de faces rosadas, és feliz. Se sonhas que não
existes mais, és feliz, porque a morte é nada.
CXXXVI
Encontrei uma olaria deserta. Em seu interior haviam
duas mil jarras, que conversavam baixinho. Uma delas falou: "Silêncio!
Permitamos a este transeunte evocar o oleiro e encontrar o que nos
criou..."
CXXXVII
Dizes que o vinho é o conforto dos solitários? Venha
a mim todo o vinho do Universo! Meu coração está cheio de mágoa... Todo
o vinho do universo, e o meu coração estará curado!
CXXXVIII
Que alma rápida, a do vinho! Oleiros, para esta alma
rápida, façam urnas bem polidas! Cinzelem os copos, arredonde-os com
amor, para que esta alma voluptuosa possa docemente se unir ao azul!
CXXXIX
Ignorante que se julga sábio, eu te dispenso de
sufocar entre o infinito do passado e o infinito do futuro. Se puderes
plantar um alfinete entre estes dois infinitos e eu te julgarei ... Vá
te sentar sob uma árvore, perto de um jarro de vinho e ele te fará
esquecer tua inabilidade.
CXL * * *
* *
Uma outra aurora! Como em cada manhã, eu descubro o
esplendor do mundo e me aflijo por não poder agradecer a seu Criador.
Mas as rosas me consolam, tanto os seus lábios se oferecem aos meus!
Deixe sua cama, minha bem-amada, porque os pássaros começam a cantar.
CXLI
Contente-se em saber que tudo é mistério: a criação
do mundo e a tua, e o destino do mundo, e o seu. Sorria a estes
mistérios como a um perigo que encontrarás. Não creias que terás
qualquer escolha quando estiveres às portas da Morte. Paz aos homens na
noite silenciosa do Futuro!
CXLII
No meio da pradaria verde, a sombra da árvore fazia
uma ilha. Transeunte, pare e sente-se! Entre a rota que segues e esta
sombra que se vai lentamente, há um abismo imensurável.
CXLIII
Que farás amanhã? Irás à taberna? Irei me assentar
em um jardim ou lerei algum livro ? Onde irás? Eu o perdi de vista.
Entusiasmo de um pássaro sobre o céu tórrido! Melancolia de um homem nas
sombras frescas de uma mesquita!
CXLIV - * * * * *
Um pouco de vinho, minha bem-amada! Tuas alegrias
não são o brilho das rosas. Um pouco de tristeza, Khayyam! Tua bem-amada
vai sorrir.
CXLV * * * * *
Nosso
universo é um tonel de rosas. Nossos visitantes são as
borboletas. Nossos músicos são os rouxinóis. Quando não existirem mais
rosas, nem florestas, as estrelas de teus olhos serão minhas rosas e
teus cabelos a minha floresta.
CXLVI
Servos, não tragam as lâmpadas porque meus
convidados, extenuados, estão sem dormir. Eu vos ensinarei a distinguir
seus modos. Compreensivos e amedrontados, eles estarão na noite de minha
tumba. Não tragam as lâmpadas, porque não há luz na casa dos mortos.
CXLVII - * * * * *
Quando estiveres curvado pela dor, quando não
tiveres mais forças nos braços, pense no verde que aparece após a
tempestade. Quando o esplendor do dia te exasperar, quando descobrires
que a noite se abate definitivamente sobre o mundo, pense nos sonhos de
uma criança.
CXLVIII
Eu dissimulo minha tristeza porque os pássaros
esquecem seu canto, para morrer. Ao vinho! Escutem minhas piadas! Ao
vinho, às rosas, aos cantos de ébrios e à tua indiferença à minha
tristeza, bem-amada!
CXLIX
Senhor, tu colocastes milhares de pés invisíveis
sobre a rota em que seguimos, e dizes: "Infortúnio aos que nos
evitarem!" Vês tudo, sabes tudo. Nada acontece sem tua permissão. Somos,
então, responsáveis pelos erros? Podes me reprovar em minha revolta?
CL - * * * * *
Eu aprendi muito e me esqueci muito, também,
voluntariamente. Em minha memória, cada coisa tem o seu lugar. Por
exemplo, o que está à direita não pode estar à esquerda. Eu não conheci
a paz do dia que todos a rejeitaram. Eu não compreendi que é impossível
afirmar ou negar.
CLI
Eu tive mestres eminentes. Eu sou o resultado de
meus progressos e de meus triunfos. Quando evoco a sabedoria que eu
tinha, eu a comparo a água que colocada em um vaso é vapor que o vento
dissipa.
CLII * * *
* *
Para o sábio, a tristeza é a alegria da criação,
tanto quanto o bem e o mal. Para o sábio, tudo que começa tem de
terminar. Então, qual a razão de te alegrares com a felicidade que
chega, ou te desolares com o infortúnio que não pedistes?
CLIII
Para nossa sorte, aqui em baixo, depois de sofrer e
de morrer, devolveremos à terra nossos corpos miseráveis? E nossa alma,
que Allah julgará por seus méritos ? Eu respondo quando me estiver
diante de qualquer um que tenha retornado da casa dos mortos.
CLIV - * * * * *
Dervixe, dispa-se desta roupa que ostentas orgulhoso
e que não tinhas quando nascestes. Vista o manto da Pobreza. Os
transeuntes não se saudarão, mas entenderás o canto de teu coração e de
todos os serafins do céu.
CLV * * *
* *
Embriagado ou alterado, eu não posso dormir. Eu
renuncio em saber o que seja bom ou mal. Para mim, a felicidade e a dor se
confundem. Quando a felicidade chega, eu não a acho mais que um pequeno
fato, porque sei que a dor se seguirá.
CLVI
Não podemos incendiar o mar, nem convencer o homem
que a felicidade é perigosa. Ele sabe, portanto, que um pequeno choque é
fatal à uma jarra cheia ... e a deixa intacta.
CLVII
* * * * *
Guarde-se
de quem está à sua volta. Não verás aflições,
angústias e desesperos. Teus melhores amigos são os mortos. A tristeza
é tua única companhia. Mas, levante o rosto! Abra suas mãos! Saiba
o que desejas e o que possas atender. O passado é um cadáver que
deves enterrar.
CLVIII * *
* * *
Olho o cavaleiro que se aproxima na bruma da tarde.
Ele atravessará as florestas ou os planos incultos? Aonde irá? Eu não
sei. Amanhã, serei compreendido sobre ou sob a terra ? Eu não sei.
CLIX
"Allah é grande!" O grito do muedim remonta à uma
imensa planície. Cinco vezes por dia é a Terra que geme com a
indiferença de sua criatura!
CLX - * * * * *
O Ramazan terminou. Corpos exaustos, almas ufanas, a
alegria retorna! Os sábios contadores de novas histórias. Os mercadores
de vinho, os mercadores de sonhos, lançam seus chamados. Mas eu não
compreendo o que me faz viver, além de minha bem-amada..
CLXI
Olhe o riacho que brilha no jardim. Como eu, ele
decide que verás o Kaouçar e estarás no Paraíso. Para procurares tua
amiga de faces rosadas.
CLXII
Nada vês além da aparência das coisas e dos seres.
Tu vales pela tua ignorância, mas não podes deixar de amar. Aprenda que
Allah nos deu o amor como nos deu certas plantas venenosas.
CLXIII
Estás infeliz? Não penses em tua dor e não sofrerás
mais. Se tua pena é muito violenta, imagine que todos os homens estão
sofrendo inutilmente desde a criação do mundo. Escolha uma mulher de
seios claros como a neve, e guarda-te de amá-la. E que ela também seja
incapaz de te amar.
CLXIV
Pobre homem, não és nada. Jamais elucidarás os
mistérios que nos envolvem. Porque as religiões prometem o Paraíso, mas
tem de cuidar da criatura sobre a terra, porque pode ser que não exista
outro lugar.
CLXV
Lâmpadas que colorem, espelhos que iluminam. Aurora.
Lâmpadas que iluminam, espelhos que colorem. Noite.
CLXVI * *
* * *
Todos os reinos por um copo de precioso vinho! Todos
os livros e toda a ciência dos homens pelo suave odor do vinho! Todos os
hinos de amor pela canção do vinho fluindo! Toda a glória de Féridoun
pelo encanto desta urna!
CLXVII - * * * * *
Recebi o copo que me oferecias. Minha bem-amada me
abandonou. Quando a tinha, era-me fácil enaltecer o amor e exaltar todas
as suas renúncias. Depois de tua bem-amada, Khayyam, como estás só! Vês:
ela partiu para que tu possas se refugiar nela.
CLXVIII
Senhor, tua brisa me alegra! Senhor, elevastes uma
muralha entre meu coração e o seu! Minha bela vindima, tu as secaste. Eu
morrerei, mas tu a administras, embriagado!
CLXIX
Silêncio, minha dor! Deixe-me encontrar um remédio.
É fato que eu vivo, porque os mortos não tem memória. E eu vejo reviver,
sem cessar, minha bem-amada!
CLXX
Voz, perfumes e copos, lábios, cabeleiras e grandes olhos,
jóias que o tempo destruiu! Austeridade, solidão e trabalho, meditação,
prece e renúncia, cinzas que o tempo esmagou, cinzas!
(Traduzido por Pedro Chicherchio
a partir da tradução francesa de Franz Toussaint, Paris, L'Édition d'art
H. Piazza)
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